Bula em tercetos

toda vez que for sair de casa
abra a porta como se
rasgasse uma placenta

se abrir uma janela
pule por ela
com os olhos

tanto quanto for possível
ande a pé
e tome a rua errada

Ebulindo

o pobre
coitadinho, não percebe a morte e a vida
na tevê pendurada na cozinha
ligada no espetáculo policial enquanto
a empregada faz feijão preto na pressão

O penhasco na beira da rejeição

um quasímodo no beiral
que canta e bebe o vinho
pulando agarrado na corda do sino que dobra às duas, às três
e cai
despenca para a morte como acontece
em todas as mortes da disney
e não se entende por quê poupar crianças
da violência que é a morte para quem
fica
parado
no beiral
tua boca, as igrejas
elas tem uma torre
e uma torre apenas
e se vê as colinas ao largo do horizonte
com o sol de inverno
se vê mesmo as placas azuis
com nomezinhos portentosos
ditando as ruas
e já não sei o que é paixão e
o que é
recusa, não sei se avanço
ou peço perdão
nos beirais,
um vacilo e a queda

Por poder

o homem explora
o homem
explora o mundo

As intempéries do gozo

a cada lufada, o vento me rasga um corte
na pele e se abrem poros
que vazam tempo
pedalo
meu corpo demanda menos para sustentar
eu tenho tempo
tempo
e produzo na mesma
medida em que ele escorre
em proporções irregulares e justas pelos cortes
sinto os músculos trabalhando em
cada pedalada e o asfalto não
oferece atrito na bike velha
as rodas famintas sorvem o asfalto
e as pessoas passam
tempo asfalto crianças
e a matilha de vira-latas tão dona
da ciclovia quanto eu

felicidade dói
mas a dor sai
barata
no escambo com a sorte

Azul

bem aventurado, aquele que acorda defronte a ti depois da noite meio dormida  há o calor, decerto há um calor por entre e ao redor dos corpos que causa radiação no quarto e irá durar as horas do dia, mas há por cima o azul do sol peneirado pela cortina mal fechada na pressa anterior ao sexo  a cortina tem essa fresta vertical recente, mas não se pode ignorar a grande faixa de horizonte aparente descolada do chão, consequência de um pequeno erro de cálculo na hora de furar as buchas na parede e suspender a armação  o lençol, as roupas por todos os lados possíveis, os celulares e carteiras e relógios cartesianamente dispostos sobre o único móvel do quarto quase vazio representando uma nesga da nossa personalidade metódica  todo esse quadro se repete quando acordo, com sorte  olho para o lustre e me ofusco apenas para fechar as pálpebras e enxergar uma mancha que sempre está lá  essa mancha é azul e em absoluto não tem cor  azul é a cor da tua saia num mafuá de tecido ao pé do colchão; você, por hábito, tão bem vestida, quase me faz desistir de desenlaçar os panos que te cobrem, por não querer desalinhar a figura  não sei desenhar linhas retas, afinal meus círculos, quando muito, são elipses - entretanto o azul se recusa a ficar torto  se tentasse te desenhar, pintaria fora das linhas com o giz de ponta grossa e o pó do rabisco iria ao chão se juntar aos sapatos  esse pó não será varrido nesta manhã quente, mas o azul


dos teus olhos me restam a mancha que sempre está lá e em absoluto não tem cor