Daquelas duas cerejeiras em frente à sua casa

ah, vá

há de ter correspondente
esse homem largado na alcova de um país estrangeiro
enquanto imagina um ou outro futuro
do pretérito
que morreu
amém

além de ter correspondência
a caixa destinada aos correios merece
também postais com fotos do teu rosto
um selo raro colado à língua
rosa, úmida
amém

e teus olhos de gueixa maculados pela distância (espaçotemporal)
foto velha, dessas que queimaram nas bordas
já me serviria
ao propósito de não ter
propósito algum
alguém?

(tu)

cartas de
tarô
ou apenas notícias
me tragam consolo ante o medo de perder os tênues fios de memória que te seguram, como um último fôlego debaixo de seis metros de oceano, e sustentem a foto desses teus olhos rasgados que me tatuaram no fundo da retina debaixo da sombra daquelas duas cerejeiras em frente à sua casa

Minha puta vontade

se vende ao prazer
se venda para caminhar cega
tátil
seguir o calor da rua
prostituta desrazão

"Estou apenas a vestir meu paletó, darling. Fumar um cigarro, vendo as pessoas. O paletó? É para quebrar o vento. Vou andar por aí e logo volto. E os cigarros? Ah, são para..."

esta vadia me carrega pela mão
entrelaça os dedos para
me puxar com firmeza
através das pedras
portuguesas
galegas, alemtejanas
(cariocas)

puta,
"Me carrega!"
não sei se interjeição
ou súplica