Azul

bem aventurado, aquele que acorda defronte a ti depois da noite meio dormida  há o calor, decerto há um calor por entre e ao redor dos corpos que causa radiação no quarto e irá durar as horas do dia, mas há por cima o azul do sol peneirado pela cortina mal fechada na pressa anterior ao sexo  a cortina tem essa fresta vertical recente, mas não se pode ignorar a grande faixa de horizonte aparente descolada do chão, consequência de um pequeno erro de cálculo na hora de furar as buchas na parede e suspender a armação  o lençol, as roupas por todos os lados possíveis, os celulares e carteiras e relógios cartesianamente dispostos sobre o único móvel do quarto quase vazio representando uma nesga da nossa personalidade metódica  todo esse quadro se repete quando acordo, com sorte  olho para o lustre e me ofusco apenas para fechar as pálpebras e enxergar uma mancha que sempre está lá  essa mancha é azul e em absoluto não tem cor  azul é a cor da tua saia num mafuá de tecido ao pé do colchão; você, por hábito, tão bem vestida, quase me faz desistir de desenlaçar os panos que te cobrem, por não querer desalinhar a figura  não sei desenhar linhas retas, afinal meus círculos, quando muito, são elipses - entretanto o azul se recusa a ficar torto  se tentasse te desenhar, pintaria fora das linhas com o giz de ponta grossa e o pó do rabisco iria ao chão se juntar aos sapatos  esse pó não será varrido nesta manhã quente, mas o azul


dos teus olhos me restam a mancha que sempre está lá e em absoluto não tem cor

Um comentário:

Surpreenda-me.